A mesada pode ser uma ferramenta importante para ensinar crianças a lidar com dinheiro, mas, sem orientação e acompanhamento dos pais, não garante o desenvolvimento de hábitos financeiros saudáveis. Às vésperas do Dia das Crianças, celebrado em 12 de outubro, especialistas destacam a importância de introduzir a educação financeira desde cedo, especialmente diante do uso crescente de pagamentos digitais, cartões e Pix na rotina das famílias.
Uma pesquisa realizada pela Serasa em parceria com o Instituto Opinion Box mostrou que 53% dos pais começaram a conversar sobre finanças com os filhos antes dos 8 anos. O levantamento também apontou que 28% das crianças e adolescentes recebem mesada por meio de Pix, conta digital ou cartão, enquanto 39% já utilizam o Pix no cotidiano.
Para a contadora e consultora financeira Angelina Moura, especialista em Investimentos, Finanças e Banking, a digitalização dos pagamentos tornou necessário explicar às crianças como o dinheiro funciona e quais são os limites dos gastos. Segundo ela, diferentemente das notas e moedas, os pagamentos eletrônicos nem sempre permitem que os pequenos percebam a redução dos recursos disponíveis.
A especialista afirma que a educação financeira deve começar pela compreensão de que toda escolha envolve consequências. Por isso, entregar uma quantia mensal sem estabelecer responsabilidades e objetivos pode limitar o aprendizado. Outro erro frequente é repor imediatamente o dinheiro quando a criança gasta toda a mesada antes do prazo combinado.
De acordo com Angelina, situações como essa podem ser aproveitadas para ensinar planejamento e responsabilidade, sem punições ou constrangimentos. Quando o dinheiro acaba antes do esperado, a criança pode aprender a esperar pela próxima quantia e refletir sobre as decisões tomadas. A orientação dos adultos, nesse processo, é fundamental para transformar a experiência em aprendizado.
O comportamento dos pais também influencia a formação dos hábitos financeiros dos filhos. Pesquisa da Serasa realizada em 2025 apontou que 65% dos responsáveis acreditam que crianças e adolescentes são influenciados pelo conteúdo que acompanham nas redes sociais. Nesse cenário, o consumo estimulado pela publicidade digital e por influenciadores pode aumentar o desejo por produtos e compras imediatas.
Para a consultora, os adultos precisam demonstrar, na prática, os comportamentos que desejam transmitir. Comparar preços, explicar por que determinada compra será adiada e permitir que a criança participe de pequenas decisões domésticas são exemplos de atitudes que contribuem para o aprendizado. A recomendação, porém, é evitar expor os filhos a preocupações financeiras que pertencem ao universo dos adultos.
Outro aspecto destacado pela especialista é que educação financeira não significa apenas economizar. Aprender a gastar com responsabilidade, estabelecer prioridades, esperar e lidar com frustrações também faz parte do processo. A criança precisa compreender que é possível utilizar uma parcela do dinheiro no presente e reservar outra para alcançar objetivos futuros.
A orientação deve considerar a idade, a maturidade e a realidade econômica de cada família, sem estabelecer um valor fixo de mesada como regra. Para os menores, períodos mais curtos entre os pagamentos podem facilitar a compreensão dos limites. Conforme a criança amadurece, os pais podem ampliar os intervalos e as responsabilidades.
Angelina Moura, fundadora da Angelina Moura Finanças e Investimentos, é contadora formada pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), especialista em Investimentos, Finanças e Banking pela PUC-RS e Certified Financial Educator (CFEd). Atua com planejamento financeiro, finanças comportamentais, investimentos e estratégias de construção e proteção patrimonial. Também é coautora do livro Dinheiro, Poder e Feminilidade.
Para a especialista, a mesada deve funcionar como um instrumento de aprendizagem, e não como uma solução isolada. O diálogo sobre compras, a comparação de preços e o exemplo dos pais ajudam a preparar crianças e adolescentes para tomar decisões conscientes e desenvolver uma relação equilibrada com o dinheiro ao longo da vida.
Foto/ Imagem: Divulgação/ Felipe Amorim
