O artista pernambucano Maurício Silva retorna ao Recife para apresentar a exposição individual “ALLER et RETOUR”, na Galeria Número, em Boa Viagem. Radicado em Meudon, nos arredores de Paris, desde 2005, o artista reúne mais de 50 obras na mostra, entre pinturas, gravuras, múltiplos e trabalhos inéditos. A exposição tem como eixo a relação entre Pernambuco e França, territórios que atravessam sua trajetória pessoal e artística.
O título da mostra, expressão francesa que significa “ida e volta”, sintetiza o percurso construído por Maurício ao longo de mais de duas décadas. Mesmo vivendo na França, o artista mantém vínculos com Pernambuco e utiliza referências, materiais e memórias dos dois lugares em sua produção.
Entre os trabalhos apresentados estão obras produzidas a partir de antigos bilhetes de metrô e ônibus utilizados na França. Guardados pelo artista ao longo dos anos, os tickets são pintados individualmente e reorganizados em composições abstratas. O que antes era utilizado apenas como registro de deslocamento passa a representar também memória, passagem do tempo e experiências acumuladas.
Outro destaque é a série “Eurocêntricas – Gravuras Eletrônicas”, criada a partir de imagens retiradas de revistas francesas de arte. O trabalho propõe uma reflexão sobre a influência histórica das referências europeias na formação artística, especialmente entre gerações que tiveram contato limitado com produções de outros continentes.
As gravuras foram impressas em papel produzido com esterco de elefante, adquirido na França por meio de um projeto que destina parte da renda à proteção dos animais na Índia. A escolha do material reforça a característica experimental da produção do artista.
A exposição também apresenta “Tampa de Crush”, obra que recupera a memória afetiva do antigo refrigerante popular no Nordeste e da expressão usada para definir alguém especial. Outro conjunto é “Saco de Arte / Arte de Saco”, formado por múltiplos concebidos para ampliar o acesso do público às obras.
A abertura contará ainda com uma performance dirigida por Maurício, às 20h, com participação do público. O conteúdo da ação será revelado somente durante a apresentação.
A trajetória do artista também se relaciona com diferentes momentos da cena cultural pernambucana, incluindo o período do Manguebeat. Para Maurício, manter as referências locais não significa limitar a produção ao território de origem. “Eu nunca deixei de ser pernambucano”, afirma.
Durante a temporada no Recife, o artista também pretende concluir o curta-metragem “Sirot e a Filosofia Batata”, com cenas gravadas no Recife e em Olinda. A produção combina humor, arte e filosofia e deverá ser finalizada antes de seu retorno à França, previsto para o fim de setembro. Para Maurício Silva, a experiência de viver entre diferentes culturas amplia as possibilidades de criação. “Eu não me sinto fora do Brasil. Eu me sinto dentro do mundo”, resume.
Foto/ Imagem: Reprodução/ Arquivo Maurício Silva (2013)
